Um jovem senhor... do apito
- Marcelo Morais
- 1 de nov. de 2019
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de nov. de 2019
São muitos os jovens que sonham com uma vida no futebol, mas raros os que escolhem a vertente com menos protagonismo. Eis uma história que está apenas no início...

Chega cansado. A imponente figura de quase 2 metros destaca-se facilmente na entrada de um bar, em Vila Real. O cabelo ainda um pouco molhado e a cara corada corroboram a frase “desculpa a demora, saí do treino, tomei um banho e vim para aqui”. Christian Rodrigues tem 21 anos. Aparenta ser mais velho pela barba, mas o a roupa desportiva que traz vestida fazem o contraste. O jovem de Bragança está atualmente no 3º ano da licenciatura em Ciências do Desporto na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Depois de se instalar confortavelmente na cadeira e de pedir um café, começa a conversa propriamente dita. Christian entrou na sua primeira opção, em 2017, num curso de Desporto que é aquilo que diz realmente gostar. Afirma que é curioso “perceber o funcionamento do nosso corpo durante a prática desportiva” dando por isso valor às unidades curriculares mais teóricas. No entanto admite preferir a componente prática, como a grande maioria dos seus colegas.
Porém, há uma modalidade desportiva que se destaca. “Sempre tive uma panca por futebol. Cheguei a experimentar outras modalidades como voleibol, futsal, atletismo. Enquanto criança acompanhamos sempre o nosso clube e o nosso ídolo, mas para ser sincero nunca tive verdadeiramente o sonho de ser jogador de futebol.”
Até aqui, Christian parece ser um jovem bastante comum, que partilha a paixão pelo futebol com milhões de outras pessoas pelo mundo. No entanto, há algo que o destaca. Não é comum ver-se, até pela imagem pouco favorável que existe no nosso país, mas Christian é árbitro de futebol. Começou na época passada a ser o “senhor do apito” em jogos de escalões de formação em campeonatos da Associação de Futebol de Vila Real. Conta que a oportunidade surgiu de uma forma espontânea pois “acordei uma manhã, fui para as aulas e, de forma informal, perguntaram me se queria ingressar no curso de arbitragem. Disse: porque não? E cá estou eu”. Nunca se imaginou como árbitro mas admite agora que descobrir uma paixão que não quer largar.
Em relação à formação como árbitro, Chris aponta alguns aspetos a melhorar, nomeadamente na parte prática pois considera que “é a mais importante”. Admite que teve uma boa preparação. “Estava à nora quando entrei no curso. Não sabias o que esperar mas adorei a experiência. A componente teórica é sempre dada por um bom professor, normalmente um árbitro da 1ª liga. No meu caso foi o Gonçalo Martins. Mas mesmo com um bom professor e tendo grandes notas na parte teórica só vais perceber a dificuldade de ser árbitro quando estiveres em campo. Não se pode comparar o meu primeiro jogo com os mais recentes.”

De um ponto de vista geral, no nosso país existe um panorama pouco favorável aos árbitros. A facilidade com que surge uma crítica é absurda e os juízes de futebol são constantemente acusados de “roubos”. Esta falta de consideração e proteção coloca os profissionais numa posição delicada. Mesmo os jovens aspirantes a árbitro começam já a sentir tudo isto na pele. Chris não culpa individualidades pois considera que é algo comum à população em geral. “É um problema da cultura portuguesa. Somos muito focados no nosso clube e não vemos tudo o que está à volta. Eu dizia o mesmo há uns anos atrás. Há muito para além do jogo em si e atualmente até prefiro em focar me em apreciar as atuações dos árbitros durante os jogos. É normal os adeptos quererem proteger a sua equipa. Na Turquia vive-se um ambiente infernal dentro dos estádios, enquanto na Inglaterra percebe-se que há um futebol mais livre e aberto no qual se respeita mais a arbitragem”.
Para reforçar a ideia da pressão existente nos ombros de um profissional da arbitragem, Christian lança uma informação tão curiosa quanto preocupante. "Num escalão superior ao meu, os árbitros têm ajuda psicológica. É muito complicado gerir a vida nessas alturas pois existe muita pressão sobre nós. Um árbitro é intimidado pelos staffs, claques, comunicação social principalmente".
O ambiente informal do café presta essa mesma informalidade para a conversa e permite que Chris acuse a comunicação social de grande parte da culpa na “perseguição” aos árbitros. “A comunicação social em Portugal está sempre em cima de nós. São vários os programas que existem apenas para falar das nossas prestações. Eu lanço o desafio: tirem o curso de arbitragem e vão vocês fazer o que nós fazemos. Vão trabalhar e treinar a semana toda, abdicando muitas vezes da vida pessoal e tentem perceber o nosso lado”. Percebe-se aqui alguma revolta. Christian ainda é muito novo nestas andanças mas certamente já ouviu vários comentários desagradáveis nos campos de futebol. Tem a noção de que esses episódios se irão repetir vezes sem conta ao longo da sua carreira mas vê na comunicação social um meio para que se procure alterar a mentalidade dos adeptos de futebol.
Uma parte dos sonhos de ser futebolista estão na vida fora do campo. A fama, o dinheiro, a vida em geral. Estes elementos podem também estar associados a um árbitro. Ou não. Christian encontra nestes profissionais algo muito peculiar. “Quanto menos se falar de um árbitro melhor”. Depois de uma ligeira reflexão a frase começa a fazer sentido. Chris explica. “Em termos profissionais, quanto menos se falar sobre a prestação de um árbitro, melhor. É sinal que fez o seu trabalho sem dar nas vistas”. No entanto, claro que o protagonismo não deixa de ser algo ambicionado por todos os comuns mortais, inclusive os árbitros. “Pela parte do protagonismo, ser árbitro principal tem muita mais visibilidade que um árbitro assistente. É aí que quero chegar. No jogo está tudo por nossa conta, temos de tomar decisões em décimas de segundo. É preciso uma grande maturidade e sentido de responsabilidade. Os jogadores não são burros e percebem se estamos a tremer ou não. Acho que o mais importante num árbitro é ser confiante. Podes estar a errar numa situação mas se fores convicto a assinalar uma falta os jogadores vão respeitar-te. Se demoras dois ou três segundos a tomar a decisão os jogadores vão sentir isso e vão perder o algum medo e respeito”.

Em relação ao futuro ainda existem muitas dúvidas. Christian sabe que está na área que gosta mas a incompatibilidade de algumas profissões com a carreira de árbitro obrigam a que o jovem tenha de tomar um decisão num futuro próximo. “Não sei onde vou estar daqui a 5 anos. Sei o que quero fazer e onde quero chegar. Quero chegar o mais longe possível no mundo da arbitragem, concluir o meu curso e fazer o mestrado. Mais tarde conciliar a arbitragem com uma prática desportiva, personal trainer ou professor de educação física. Dou prioridade à carreira de árbitro. É o bichinho que nos leva a estar cada vez mais envolvidos na área. Por outro lado, uma carreira numa entidade clubística, de preferência no meu clube (risos) seria um sonho também".
Analisando a cultura desportiva que se vive em Portugal atualmente, não parece existir demasiada motivação para se ambicionar em ser árbitro. Por isso mesmo, Christian é uma surpreendente história de força de vontade e sonho. O jovem é consciente de onde quer chegar e promete lutar para alcançar os seus objetivos. O panorama atual funciona como uma força negativa. Mas a força do sonho é muito maior.
A conversa termina por esta altura. À saída do café o tema já é a meteorologia. O céu cinzento deixa no ar a incerteza quanto a possível queda de chuva. Habituado a um poder de superioridade dentro de campo aquando das discussões com jogadores, Chris diz que não vai chover e eu lá acabo por concordar com ele. Se continuasse a insistir estava sujeito a ver um cartão amarelo.
Agradecimento: Christian Rodrigues


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